Todo corpo é vermelho por
dentro. Todo sistema, do digestivo ao nervoso, é regado pelo vermelho viscoso
produzido pelo nosso corpo em harmonia com a alma e a natureza. Se o vermelho
falta, se o vermelho some, se o vermelho seca; o corpo sucumbe e morre.
Morre-se tudo sem o vermelho.
E dentre florestas, cerrados
e “pantanagens”, pequenos pontos vermelhos se misturavam a floresta,
mergulhavam os rios e dentre os mitos e os ritos até aos céus pertenciam.
Dividia-se pelos quatro elementos: parte de seus pés, braços, mãos,
costelas... Como se pudessem ser o outro
e si próprio. E o eram. Peixe-metade-mulher-cantora, flor-índia-amante-da-lua,
Dia-dentro-do-coco, sol-separado-da-lua, céu-surgindo-da-pedra,
diamante-lágrima-de-índia. E o eram... E o eram a própria natureza.
Tem o vermelho na pele,
forte, viscoso. Teve o vermelho escorrendo pela pele, ainda mais forte e
viscoso. Mas não vai perder, não vai sucumbir, não, não pode perder. Se perder,
perde também a natureza, a harmonia, as plaquetas da mata... Vem a anemia. E
cambaleia as flores, os peixes, os pássaros. Murcha a Naiá, a Potira, o Curumim
e some a flor, o diamante e o guaraná.
Deixa o sangue correr na
mata. Respeita o vermelho como respeita o branco, o preto e o amarelo. Respeita
quem já era daqui e abria sem raiva as mitocôndrias da Ilha de Vera Cruz,
depois regou de leucócitos a Terra de Santa Cruz e hoje é um ser estranho da
República Federativa do Brasil. Respeita quem dividiu o solo, cuidou para
gente, lutou com a vida. E vem para o pátio e dança... Dança... Pede por mim
também que te desconheço e que desconheço a sua história.
Feliz são todos os dias seus.
E pego o 19 de um abril de sol para dizer que é seu também. Esse meu dia, dia
de um não-índio, é seu. Recebe, sei que é pouco, mas me orgulho em dizer que
meu país não existiu com a chegada dos Portugueses, mas com o nascimento do
primeiro índio.
Feliz dia do índio a todos os
brasileiros!
Wanderson
Lana



